Piscicultura, espécies exóticas e poluentes alteram ecossistema do Lago de Furnas; veja os riscos à água e à fauna

  • 07/04/2026
(Foto: Reprodução)
Lago de Furnas tem 11 vezes o volume da Baía de Guanabara e 'cidades submersas' O Lago de Furnas, um dos maiores reservatórios do Brasil, tem enfrentado uma crescente pressão ambiental que pode estar ameaçando o equilíbrio de seu ecossistema. Pesquisadores alertam que a combinação entre espécies invasoras, práticas intensivas de piscicultura e a presença de contaminantes emergentes vem alterando a dinâmica natural do lago. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram 📺 De 30 de março a 10 de abril, o g1 Sul de Minas e a EPTV percorrem o Lago de Furnas na expedição especial “Travessia das Águas”, que mostra a dimensão, a importância econômica e as histórias de quem vive da água em torno do maior reservatório de água doce do Sudeste e um dos maiores do Brasil. Além das reportagens especiais no portal e de conteúdos exibidos nos telejornais da EPTV, é possível acompanhar os bastidores da expedição em um diário de bordo em tempo real. Ponte das Amoras, Lago de Furnas, entre Alfenas e Campos Gerais Lucas Soares/g1 📹 Acompanhe em tempo real os bastidores da viagem Espécies nativas x exóticas: um ecossistema em desequilíbrio De acordo com o professor Paulo Pompeu, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), o reservatório de Furnas já registra 65 espécies de peixes, sendo 51 nativas e 14 não nativas. “Isso considerando apenas as espécies de peixe, porque existem várias outras espécies não nativas dentro do reservatório de Furnas, como, por exemplo, espécies de camarão e de moluscos não nativos”, destaca. A distribuição das espécies revela um cenário de desequilíbrio. Segundo o pesquisador, há maior concentração de espécies nativas nas regiões superiores do reservatório, próximas aos rios formadores, enquanto áreas mais próximas à barragem apresentam aumento de espécies exóticas. “Esse gradiente é muito nítido, de mais espécies nativas nas regiões altas do reservatório e menos espécies nativas quanto mais próximo da barragem”, explica. “E quanto mais próximo da barragem também aumenta a abundância e o número de espécies não nativas”, completa. A introdução dessas espécies está diretamente ligada à ação humana. “Algumas das espécies de peixes não nativas do reservatório de Furnas hoje nitidamente chegaram ao reservatório através de escapes de piscicultura”, afirma Pompeu. “E essas espécies, reconhecidamente, todas elas, acabam trazendo impacto à fauna local”, alerta. Tanques-rede para criação de peixes no Lago de Furnas EPTV/Reprodução A piscicultura em tanques-rede é apontada como um dos fatores que contribuem para a degradação ambiental do lago. Segundo o professor, a prática pode comprometer a qualidade da água, especialmente quando realizada em alta densidade. “O tanque-rede está relacionado a uma piora da qualidade da água, principalmente quando ele é realizado em grandes densidades”, explica. Ele destaca que o problema está ligado aos dejetos dos peixes e à ração não consumida. “Isso acaba mudando a comunidade de peixes no entorno dos tanques-rede”, afirma. 🐟 Espécies invasoras: Das 65 espécies de peixes registradas, 14 são não nativas; há também camarões e moluscos exóticos. 📍 Desequilíbrio na distribuição: Mais espécies nativas nas áreas próximas aos rios; aumento de espécies exóticas perto da barragem. 👩‍🔬 Ação humana como causa: Espécies invasoras chegaram principalmente por escapes da piscicultura. Leia também: Diretor Gabriel Villela transforma casa histórica às margens de Furnas em refúgio criativo do teatro brasileiro Conheça 'Gilda', a garça que criou rotina com dona de pousada e aceita peixe na mão no Lago de Furnas Pesca no Lago de Furnas sustenta famílias e impulsiona turismo, mas enfrenta desafios no Sul de Minas Do camping à lancha: 5 rotas para explorar o Lago de Furnas e aproveitar o melhor de cada região Casa no meio da água? Flutuantes viram 'point' e transformam o Lago de Furnas em novo polo de experiências turísticas Contaminantes emergentes e riscos à saúde humana Além das mudanças visíveis no ecossistema, pesquisadores também investigam ameaças menos perceptíveis, como os contaminantes emergentes. A Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG) está implantando um laboratório para monitorar a qualidade da água no Lago de Furnas. A coleta de amostras e análises deve começar no segundo semestre deste ano. Pesquisadores da Unifal irão implantar laboratório para monitorar qualidade da água no Lago de Furnas Oswaldo Henrique/EPTV Segundo a professora Giovana Martins, o objetivo é identificar substâncias que ainda não são amplamente monitoradas. “Serão analisados diferentes tipos de contaminantes emergentes, incluindo metais e compostos orgânicos”, explica. Entre eles estão substâncias como chumbo, mercúrio, arsênio, além de medicamentos, agrotóxicos e drogas ilícitas. “Os contaminantes emergentes podem causar desequilíbrios nos ecossistemas aquáticos, alterando a reprodução dos animais, podendo causar mutações no DNA e o aparecimento de tumores. Além disso, podem afetar outros organismos vivos e se acumular na cadeia alimentar”, acrescenta. Outro ponto crítico é a dificuldade de remoção desses compostos nos sistemas convencionais de tratamento de água e esgoto. “Como não são totalmente removidos, podem alcançar a água de abastecimento, ampliando os seus impactos”, destaca Giovana. A professora Mariane Gonçalves dos Santos reforça que o problema está na complexidade dessas substâncias. “Esses sistemas foram projetados para remover poluentes mais comuns, como matéria orgânica e microrganismos”, explica. “Já substâncias como medicamentos, hormônios e agrotóxicos são mais complexas, persistentes e aparecem em baixas concentrações, o que dificulta a sua remoção”, completa. 🧪 Contaminantes emergentes: Presença de metais pesados, medicamentos, agrotóxicos e drogas ilícitas na água. 🧬 Riscos ambientais: Podem causar mutações genéticas, tumores e desequilíbrios na reprodução dos organismos aquáticos. 🚰 Risco à saúde humana: Essas substâncias não são totalmente removidas no tratamento de água e podem chegar ao consumo. Mariane também alerta para os riscos à saúde. “Muitas dessas substâncias podem apresentar potencial mutagênico e carcinogênico em seres humanos”, afirma. “Além disso, podem afetar o funcionamento do sistema endócrino e nervoso, causando problemas hormonais e neurológicos”, diz. “Um problema muito sério é o aparecimento de bactérias super resistentes, que dificultam os tratamentos de infecções com os antibióticos disponíveis”, acrescenta. Apesar disso, ela pondera: “Os estudos ainda são recentes e não é possível prever a totalidade de danos que essas substâncias podem causar aos seres humanos”. Diante desse cenário, especialistas defendem a ampliação dos estudos e o envolvimento da sociedade. A UNIFAL-MG também pretende desenvolver ações de educação ambiental e parcerias com os moradores. “O apoio da comunidade é fundamental para o desenvolvimento deste projeto”, afirma Mariane. Como os estudos são recentes, ainda não é possível prever a totalidade de danos Júlia Reis/g1 Infográfico - Usina de Furnas em números Arte g1 Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/lago-de-furnas-travessia-das-aguas/noticia/2026/04/07/piscicultura-especies-exoticas-e-poluentes-alteram-ecossistema-do-lago-de-furnas-veja-os-riscos-a-agua-e-a-fauna.ghtml


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